Por José Carlos Almeida
Ninguém duvidava de que o show de Paul McCartney na Arena Fonte Nova, em Salvador, seria um momento histórico. E ele não decepcionou. Com voz perfeita, muito em forma e transbordando energia e simpatia, Macca fez uma apresentação que emocionou a todos os fãs de longa e curta data – e até mesmo quem estava ali só por curtição de sexta à noite.

Mas um momento específico do show desagradou parte dos fãs. Aconteceu quando, seguindo o script do espetáculo, ele perguntou se tinha alguém ali na platéia que estava fazendo aniversário. Muitos gritaram “eu, eu, eu!”, na ilusão de que poderia ser chamado a comemorar no palco. Só que apenas uma pessoa foi chamada. Não um aniversariante, nem uma daquelas fãs fantasiadas de Sgt. Pepper com roupa azul de Paul McCartney. Dessa vez, quem teve a felicidade de subir ao palco foi uma bela garota de biquini e short jeans curtíssimo.

Ela já havia aparecido nos telões 3 vezes erguendo um cartaz que dizia “This girl from Brazil wants to dance with you” (Essa garota do Brasil quer dançar com você). Yasmin é o nome da sortuda, segundo ela própria respondeu a Paul McCartney, que também perguntou de onde ela era: “Sal…va… dor”, respondeu a gata, antes de serem tocados os primeiros acordes de “Birthday”, música do famoso White Album (o Álbum Branco dos Beatles, que na verdade se chama apenas ‘The Beatles’), de 1968. Durante toda a música a menina dançou, rebolou, tocou air guitar, andou para um lado e pro outro, abraçou, beijou e se despediu de Paul com o famoso “tapinha na mão”. Show que segue.

POLÊMICA – Ela provavelmente ainda estava em êxtase quando, ao descer do palco, teve um choque de realidade: dezenas de fãs, aquelas “fãs de verdade”, estavam iradas! Afinal, por que, entre tantas pessoas que conhecem a discografia dos Beatles, várias com cartazes criativos e com figurino especial na tentativa de chamar a atenção da produção, logo aquela garota seminua foi a escolhida? “Putinha”, “rapariga”, “piriguete” e “piranha” foram algumas palavras gentilmente dirigidas à rebolativa moça. “Quero ver se você é fã mesmo! Canta ‘Birthday’ aí, que eu quero ver!”, desafiou a pernambucana Claudia Tapety, fanática de longa data que costuma gastar uma boa grana com as já tradicionais ações coletivas durante algumas músicas (nesse show, por exemplo, ela imprimiu milhares de leques com a foto da mãe de Paul McCartney para serem exibidos durante ‘Let It be’).

Os protestos continuaram na saída do estádio, com muitas pessoas acusando a produção de enganar os fãs com uma “armação”. Vários afirmavam que a garota não era fã, e sim uma modelo escalada para estrelar o próximo videoclipe de Paul McCartney. Para vários, exatamente esse é o problema. A já citada Claudia Tapety até escreveu para várias pessoas da produção protestando contra a escolha daquela garota para representar as fãs do Brasil. “Como brasileira, estou profundamente ofendida com a maneira como a equipe vê nossas garotas. Nós não somos vulgares. Nós respeitamos Paul e nenhuma de nós agiria daquela maneira”, diz trecho da mensagem.

Nas redes sociais o burburinho continuou: “espero que Nancy tenha colocado Paul pra dormir no sofá”, comentou uma fã; “Ela dançou lindamente e enfeitou muito bem aqueles telões”, opinou um outro fã; “Se fosse um trio elétrico ou um show do Safadão até seria legal, mas ali não”, comentou outra; “essa é a imagem que o gringo tem da mulher brasileira: de biquini, sempre rebolando, com jeito de p***”, é o que diz outra mensagem que reproduzimos aqui.

OPINIÃO – Já que tanta gente deu sua opinião sobre o caso, vou dar a minha: ninguém é melhor do que ninguém, nem é mais fã do que ninguém. Quem paga hotsound tem direito a merenda veggie, tour book, brindes e soundcheck. Mas não poderá nunca exigir ser escolhido para subir ao palco. Não existe esse negócio de “fã de verdade” e “fã de mentira”. Vi dois shows dessa nova temporada (One On One, em SP e Salvador) e valorizo cada minuto que passei ali na frente daquele palco, como mais um na multidão. Paul deveria abolir imediatamente essa coisa de chamar gente ao palco. Quem vai ao seu show, principalmente o fã de longa data, que passou a vida gastando dinheiro com disco de vinil, CD, Spotify e afins, quer ver é um verdadeiro show de Rock’n’roll, sem necessidade nenhuma desse “momento fã sortudo”. O que exigimos de verdade é mais respeito por parte da empresa responsável, que não sabe nem quer agradar ninguém, apenas vender ingressos e ter lucro. Fora isso, o show da Fonte Nova foi – como sempre – perfeito, uma viagem ao mundo dos nossos melhores sonhos. Continua sendo o maior espetáculo da terra e espero que ano que vem ele volte! Eu estarei lá novamente, mais uma cabecinha no meio da multidão, mais um rosto anônimo esperando no portão de entrada só para vê-lo de perto por alguns segundos, agradecendo a Deus por mais esse momento.