
A coletânea Come and Get It revela a caótica e genial diversidade do selo Apple Records, criado pelos Beatles.
Se a Apple Records, fundada pelos Beatles em 1968, fosse uma festa, seria o lugar mais inesperado e musicalmente diversificado de Londres. A coletânea “Come and Get It: The Best of Apple Records”, lançada em 25 de outubro de 2010, não é apenas um “greatest hits”. É um sampler vibrante e caótico que documenta a ambição (e a confusão) da gravadora que os Fab Four queriam que fosse um farol de liberdade artística. O disco, que acompanha a reedição massiva do catálogo não-Beatles do selo, mostra que a Apple era tudo, menos previsível.
Após a explosão global do Sgt. Pepper’s, os Beatles estavam buscando novas formas de exercer sua criatividade e poder financeiro. A Apple Records nasceu com uma intenção utópica: ser um selo que colocava o artista em primeiro lugar, liberando-o das amarras do establishment da indústria. A coletânea ilustra essa filosofia, reunindo artistas que abrangem do folk ao gospel, do rock psicodélico ao music hall britânico. A produção dessa reedição de 2010 foi supervisionada pela mesma equipe de engenheiros que trabalhou na remasterização do catálogo dos Beatles em 2009.
O grande tema da coletânea é a influência dos Beatles fora de sua própria banda. O álbum é um parque de diversões onde John, Paul, George e Ringo aparecem constantemente como compositores, produtores ou músicos de sessão para os artistas contratados. Paul McCartney é o mais representado na composição, cedendo a faixa-título “Come and Get It” para o Badfinger (que se tornaria a banda proto-power pop de maior sucesso da Apple) e escrevendo o hit melancólico “Goodbye” para Mary Hopkin.
A análise das principais músicas revela essa beatlemania na produção: Mary Hopkin brilha com a balada folk “Those Were the Days”, um sucesso estrondoso, produzida por McCartney. George Harrison assume o protagonismo na produção, dando a Jackie Lomax a soulful “Sour Milk Sea” (com participações de Paul e Eric Clapton!) e a Ronnie Spector a poderosa “Try Some, Buy Some” (antes de Harrison lançar sua própria versão). O “quinto Beatle” Billy Preston marca presença com o gospel-soul vibrante em “That’s the Way God Planned It”, provando o toque de Midas que os Beatles tinham para descobrir talentos.
Mas a Apple não se limitou ao pop de sucesso. A coletânea é obrigatória por suas esquisitices e momentos cult. Temos a pérola singer-songwriter de James Taylor com a versão original de “Carolina in My Mind” (que conta com Paul McCartney no baixo!), o proto-punk de Trash regravando “Golden Slumbers” e o famoso e banido novelty song “King of Fuh” do Brute Force, que teve sua distribuição censurada devido ao seu “obsceno” trocadilho. Há até a participação da banda marcial The Black Dyke Mills Band na instrumental “Thingumybob”, de Paul McCartney.
O álbum não é apenas uma cápsula do tempo do rock e pop do final dos anos 60 e início dos 70; é um testemunho de como a anarquia criativa pode levar a resultados geniais. Embora a Apple Records tenha sido criticada por sua má administração e pelos conflitos internos que a levaram à dissolução (muitos artistas promissores, como Fleetwood Mac e David Bowie, passaram pelas suas portas e escaparam), seu legado musical é irrefutável.
A coletânea “Come and Get It” funciona como um mosaico de 21 faixas que, apesar de desiguais em termos de sucesso comercial, compartilham o DNA do pop mais ambicioso da época. Ela celebra uma era onde uma gravadora podia arriscar em estilos musicais de nicho — do Cajun de Sundown Playboys ao East Indian do The Radha Krisna Temple (London) — apenas porque os Beatles achavam que o mundo precisava ouvir.
É, no fim das contas, um álbum essencial para entender que o legado dos Fab Four vai muito além de suas próprias gravações, estendendo-se por um selo que, de forma caótica e brilhante, moldou a história do pop moderno. Uma mordida agridoce, mas deliciosa, na Maçã.
Ficha Técnica
Autor/banda: Vários Artistas (Coletânea)
Ano de lançamento: 2010 (lançamento da coletânea, com gravações originais de 1968-1973)
Produtor: Vários (incluindo Paul McCartney, George Harrison, Gus Dudgeon e os próprios artistas)
Gravadora/Editora: Apple Records
Tracklist:
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Those Were the Days (Gene Raskin) – Mary Hopkin
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Carolina in My Mind (James Taylor) – James Taylor
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Maybe Tomorrow (Tom Evans) – The Iveys
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Thingumybob (Lennon–McCartney) – The Black Dyke Mills Band
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King of Fuh (Brute Force) – Brute Force
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Sour Milk Sea (George Harrison) – Jackie Lomax
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Goodbye (Lennon–McCartney) – Mary Hopkin
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That’s the Way God Planned It (Billy Preston) – Billy Preston
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New Day (Jackie Lomax) – Jackie Lomax
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Golden Slumbers/Carry That Weight (Lennon–McCartney) – Trash
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Give Peace a Chance (John Lennon) – Hot Chocolate Band
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Come and Get It (Paul McCartney) – Badfinger
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Ain’t That Cute (George Harrison, Doris Troy) – Doris Troy
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My Sweet Lord (George Harrison) – Billy Preston
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Try Some, Buy Some (George Harrison) – Ronnie Spector
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Govinda (Traditional, arr. George Harrison) – The Radha Krsna Temple (London)
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We’re On Our Way (Chris Hodge) – Chris Hodge
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Saturday Nite Special (Boudleaux Bryant) – The Sundown Playboys
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God Save Us (Lennon–McCartney) – Bill Elliott and the Elastic Oz Band
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Sweet Music (Lon Van Eaton, Derrek Van Eaton) – Lon & Derrek Van Eaton
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Day After Day (Pete Ham) – Badfinger












José Carlos Almeida
Fernando França