Mundo da Música

Led Zeppelin – Led Zeppelin III (1970)

Quando os Deuses do Rock Trocaram o Inferno pela Floresta

Led Zeppelin III: O álbum que virou as costas para a fórmula do heavy-rock e provou que a banda era muito mais do que riffs gigantes.

Chega de riffs incessantes e batidas na cara. Em 1970, o Led Zeppelin chocou a crítica e parte do público com Led Zeppelin III, um disco que, em vez de seguir a cartilha de hard rock de seus antecessores, mergulhou de cabeça nas paisagens do folk e do blues acústico. A banda, composta pelo quarteto imbatível de Robert Plant (vocais), Jimmy Page (guitarra), John Paul Jones (baixo, teclado) e John Bonham (bateria), vinha de uma rotina insana de shows e precisava de um respiro. O que aconteceu? Plant e Page se isolaram na cabana rural galesa chamada Bron-Yr-Aur, e essa experiência moldou todo o tom do álbum.

O tema central do disco é o contraste e a reconexão. A primeira metade do LP apresenta a energia épica já conhecida (o lado “elétrico”), enquanto a segunda metade é dedicada quase inteiramente à introspecção e ao charme bucólico do folk (o lado “acústico”). O álbum marca a maturidade de Page e Plant como compositores, mostrando uma versatilidade que muitos críticos iniciais não souberam absorver. A crítica da época chegou a ser fria, acusando-os de estarem “se vendendo” (ironicamente, o mesmo conceito do álbum do The Who), mas o tempo provou que essa ruptura foi essencial para a longevidade criativa da banda.

Cansados da rotina de turnês, Jimmy Page e Robert Plant buscaram inspiração no campo, isolados em Bron-Yr-Aur (que dá nome à instrumental “Bron-Y-Aur Stomp”). Esse isolamento fez com que Plant florescesse como letrista, e Page explorasse o violão com tunagens alternativas e instrumentos variados como o dulcimer e o banjo. Com a ajuda do produtor e engenheiro Andy Johns e a mixagem de Eddie Kramer, a banda utilizou estúdios como o Rolling Stones Mobile, Headley Grange e Island Studios para capturar tanto a brutalidade do hard rock quanto a delicadeza do folk.

O disco estourou nas paradas mundiais, alcançando o topo tanto no Reino Unido quanto nos EUA, com milhões de cópias em pedidos antecipados, um testemunho do hype que o grupo havia construído. Apesar disso, foi o single “Immigrant Song” o único a ser lançado nos EUA, atingindo o 16º lugar na Billboard Hot 100. Contudo, a verdadeira curiosidade está no design da capa: a edição original de vinil tinha um complexo e interativo dial (roda giratória) que, ao ser movido, revelava diferentes imagens através de recortes na capa, um toque psicodélico e artesanal que refletia a experimentação musical interna.

Analisando os hits, temos o início estrondoso com “Immigrant Song,” uma porrada mitológica sobre vikings e a Islândia (inspirada em uma turnê da banda por lá), com o vocal agudo e icônico de Plant. Já o lado acústico é dominado por faixas como “That’s The Way,” uma balada introspectiva e suave de Page e Plant, e “Gallows Pole,” uma adaptação de uma canção folclórica tradicional que começa calma e cresce para um clímax frenético, mostrando o brilho da bateria de John Bonham no ritmo explosivo da segunda parte. O blues pesado, que é a espinha dorsal do Zeppelin, surge na clássica e arrastada “Since I’ve Been Loving You,” onde Jones brilha com o órgão Hammond.

O momento em que o álbum foi lançado, em 5 de outubro de 1970, mostra uma banda enfrentando a sombra do sucesso avassalador de Led Zeppelin II. O terceiro disco foi a forma que o quarteto encontrou de se libertar das expectativas, provando que não era apenas uma máquina de heavy metal, mas um grupo capaz de misturar as tradições do folk britânico e do blues americano com uma produção moderna e visionária. Essa experimentação pavimentou o caminho para o sucesso ainda maior e mais diversificado de Led Zeppelin IV.

Curiosamente, o álbum termina com “Hats Off to (Roy) Harper,” uma homenagem clara ao músico folk britânico Roy Harper, um amigo da banda. Essa menção final é o fecho perfeito para o lado B, um reconhecimento da influência folk que permeou o projeto. A produção de Page, o trabalho de manager de Peter Grant (produtor executivo) e a contribuição de John Paul Jones no Moog e mandolim fazem de Led Zeppelin III um clássico que equilibra a luz (acústica) e a sombra (elétrica), uma verdadeira bússola criativa para as décadas seguintes.

Ficha Técnica
Autor/banda: Led Zeppelin
Ano de lançamento: 5 de outubro de 1970
Produtor: Jimmy Page
Gravadora/Editora: Atlantic Records

Tracklist
* Immigrant Song (Jimmy Page, Robert Plant)
* Friends (Jimmy Page, Robert Plant)
* Celebration Day (Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones)
* Since I’ve Been Loving You (Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones)
* Out on the Tiles (Jimmy Page, Robert Plant, John Bonham)
* Gallows Pole (Traditional; arr. Jimmy Page, Robert Plant)
* Tangerine (Jimmy Page)
* That’s The Way (Jimmy Page, Robert Plant)
* Bron-Y-Aur Stomp (Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones)
* Hats Off to (Roy) Harper (Charles Obscure)

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