
Como Something Else by The Kinks transformou o rock em um sofisticado e sarcástico retrato da vida inglesa.
Em um ano que seria dominado pela psicodelia californiana e pelo pop grandioso dos Beatles, os Kinks, liderados pelo gênio composicional de Ray Davies, decidiram olhar para dentro de casa. Lançado em 15 de setembro de 1967 pela Pye Records, Something Else by The Kinks (muitas vezes chamado de Something Else) é menos uma viagem lisérgica e mais um passeio nostálgico pelos subúrbios ingleses. Este quinto álbum de estúdio consolidou a transição da banda do garage rock de seus primeiros hits para um estilo mais excêntrico e literário, definido pelo baroque pop e a melancolia agridoce das canções de music hall.
O disco representa um marco na trajetória da banda, assinalando a saída do produtor americano Shel Talmy, que havia trabalhado com eles na era dos hits explosivos. A partir deste álbum, Ray Davies assume progressivamente o controle criativo, tornando-se o principal produtor das gravações – embora o álbum seja uma mistura de faixas produzidas por Talmy e as primeiras tentativas solo de Davies. Essa mudança de comando resultou em uma sonoridade mais intimista, cheia de arranjos detalhados e um foco ainda mais aguçado nas letras observacionais e introspectivas de Ray.
O tema central é a ironia e a observação da vida cotidiana e das personalidades excêntricas da sociedade britânica. Liricamente, o álbum navega por esquetes sociais, desde o sarcasmo sobre o individualismo e a ambição em “David Watts” até o retrato irônico da vida de casada na middle-class em “Situation Vacant”. É um trabalho que, em sua essência, prepara o terreno para o que seria o próximo grande projeto conceitual da banda, The Kinks Are the Village Green Preservation Society.
Do ponto de vista musical, o disco é diversificado e sutil. O piano e o cravo do talentosíssimo músico de sessão Nicky Hopkins são onipresentes, conferindo um toque de câmara pop à produção, como no charmoso “Two Sisters”. Já “No Return” surpreende com seus toques de bossa nova, mostrando a amplitude das referências de Davies. Por sua vez, o guitarrista Dave Davies contribui com três faixas, incluindo o hit “Death of a Clown” – uma balada chamber pop melancólica que, além de ser um sucesso, é uma das suas melhores composições para a banda.
O grande diamante do álbum, no entanto, é “Waterloo Sunset”. Lançado como single antes do álbum, tornou-se uma das músicas mais aclamadas do grupo, um hino de beleza urbana e contemplação solitária que define a elegância do estilo lírico de Ray Davies. A canção, que quase alcançou o primeiro lugar nas paradas britânicas, captura um momento de tranquilidade em meio à agitação de Londres e mostra a capacidade de Davies de encontrar poesia no mundano.
Apesar de conter dois grandes sucessos europeus (“Waterloo Sunset” e “Death of a Clown”), Something Else teve um desempenho comercial fraco no lançamento, tornando-se um dos álbuns com menor sucesso da banda nas paradas do Reino Unido e dos EUA na época. Isso se deveu, em parte, à concorrência com compilações de baixo custo de seus hits anteriores e ao banimento de performances ao vivo nos EUA, que ainda estava em vigor.
Uma curiosidade tocante é a participação de Rasa Davies, esposa de Ray Davies na época, nos vocais de apoio de muitas faixas, adicionando uma textura angelical que suaviza a sátira social. A recepção da crítica foi majoritariamente positiva desde o início, com a Rolling Stone de 1968 o considerando o melhor álbum dos Kinks até então. Retroativamente, o álbum ganhou status de cult e foi ranqueado na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos da Rolling Stone, provando que a complexidade e a profundidade de Davies resistiram ao tempo.
Este é o disco em que os Kinks se estabeleceram definitivamente não apenas como uma banda de rock, mas como cronistas sociais e mestres do art pop. É um trabalho fundamental para quem busca entender a intersecção entre o lirismo da música folk e a estrutura pop britânica, com um humor cínico e uma percepção aguçada que ainda ressoam hoje.
Ficha Técnica
Autor/banda: The Kinks
Ano de lançamento: 1967
Produtor: Shel Talmy (não creditado no Reino Unido) e Ray Davies (não creditado no Reino Unido; a produção é uma mistura de ambos)
Gravadora/Editora: Pye Records
Tracklist:
A
* David Watts (Ray Davies)
* Death of a Clown (Ray Davies, Dave Davies)
* Two Sisters (Ray Davies)
* No Return (Ray Davies)
* Harry Rag (Ray Davies)
* Tin Soldier Man (Ray Davies)
* Situation Vacant (Ray Davies)
* Love Me Till the Sun Shines (Dave Davies)
B
* Lazy Old Sun (Ray Davies)
* Afternoon Tea (Ray Davies)
* Funny Face (Dave Davies)
* End of the Season (Ray Davies)
* Waterloo Sunset (Ray Davies)












José Carlos Almeida
Fernando França