Mundo da Música

The Who – Sell Out (1967)

A Mais Irreverente Transmissão Pirata do Rock

Em 1967, The Who transformou o marketing em arte psicodélica, vendendo a alma (e desodorante) para criar um clássico atemporal.

Lançado em 15 de dezembro de 1967, em pleno auge da efervescência psicodélica, The Who Sell Out é mais do que o terceiro álbum de estúdio do The Who: é uma cápsula do tempo musical e um manifesto pop-art. Estruturado como uma transmissão da icônica rádio pirata britânica, a Wonderful Radio London, o disco intercala canções geniais de Pete Townshend e John Entwistle com jingles e anúncios falsos, injetando uma dose de ironia mordaz sobre a crescente comercialização do rock. É a banda brincando com a ideia de “se vender” (o sell out do título), algo que eles, de fato, faziam na época com comerciais reais, tornando a piada ainda mais afiada e autorreferencial.

O grande mestre por trás da maior parte da composição é o guitarrista Pete Townshend. No entanto, é importante destacar a contribuição afiada do baixista John Entwistle, que não só assinou três faixas, incluindo as hilárias “Heinz Baked Beans” e “Medac”, como também foi co-responsável pelos curtos e engraçados interlúdios de anúncios junto com o baterista Keith Moon. O álbum marca um ponto de virada estilístico, mergulhando no psychedelic pop e no power pop, mas sem abandonar as raízes mod e a energia crua que os consagraram.

O álbum é um tributo direto às rádios piratas que, nos anos 60, eram a única via para a juventude ouvir rock, já que a BBC não dava a devida atenção à música contemporânea. A lei Marine, &c., Broadcasting (Offences) Act 1967, que entrou em vigor em agosto daquele ano, criminalizando a maioria dessas estações (incluindo a Radio London), deu um peso nostálgico e de homenagem ao conceito do disco, fortalecendo seu efeito de denúncia.

Em termos de análise, a obra prima pela fragmentação e pela coesão paradoxal. A genialidade reside em usar a estrutura de rádio—com seus jingles e avisos—como fio condutor, mas permitindo que as músicas funcionem de forma isolada. A produção, principalmente a cargo do empresário Kit Lambert (com menção a Chris Stamp), é rica e experimental, utilizando estúdios como IBC, Pye, De Lane Lea (Londres) e até Mirasound (Nova York), contando com o convidado especial Al Kooper no órgão em duas faixas, adicionando camadas sonoras complexas e inovadoras para a época.

O impacto comercial mais notável do álbum veio do seu único single americano, “I Can See for Miles”. Escrita por Townshend, a faixa atingiu o 9º lugar nos EUA e o 10º no Reino Unido, tornando-se o único Top 10 do The Who na América. Apesar do sucesso da música, o álbum em si foi o que teve a menor colocação nas paradas britânicas para a banda na época, chegando ao 13º lugar no UK Albums Chart e 48º no US Billboard 200. Mesmo assim, a crítica o abraçou: a Rolling Stone o incluiu em sua lista de “Os 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos”.

Musicalmente, “I Can See for Miles” é o grande peso pesado: um épico power pop que Roger Daltrey entrega com vocais potentes e uma estrutura complexa que Townshend vinha guardando para o momento certo. Outros destaques incluem “Armenia City in the Sky”, uma das poucas faixas do The Who não composta por Townshend ou Entwistle, mas sim por Speedy Keen (futuro vocalista do Thunderclap Newman), que tem uma sonoridade freakbeat e psicodélica inconfundível, e a balada melancólica e subestimada “Sunrise”.

Uma curiosidade hilária envolve a capa icônica do álbum: o baixista John Entwistle aparece com uma fantasia de Tarzan e um urso de pelúcia, em uma pose bizarra para um anúncio fake do curso Charles Atlas. Mas o momento mais “sofrido” foi o de Daltrey, que posou para a foto sentado em uma banheira cheia de Feijão Assado Heinz Gelado (sim, feijão de verdade), alegando ter contraído a pior gripe de sua vida por causa da friagem.

O álbum é uma obra-prima de arte conceitual que, ao satirizar o capitalismo e a publicidade com a ajuda de empresas de jingles reais (PAMS Productions de Dallas, Texas), acabou, ironicamente, gerando polêmica e ameaças de processo da Odorono e dos criadores dos jingles. No entanto, o tempo provou que essa “venda” foi a jogada mais inteligente da carreira inicial do Who, misturando rock explosivo e psicodelia com a estética descartável do consumismo, deixando um legado de puro gênio no catálogo da Track Records e Decca Records.

Ficha Técnica
Autor/banda: The Who
Ano de lançamento: 15 de dezembro de 1967
Produtor: Kit Lambert (e Chris Stamp, mencionado em algumas fontes)
Gravadora/Editora: Track Records (Reino Unido), Decca Records (EUA)

Tracklist (Original Release – UK)
* Armenia City in the Sky (Speedy Keen)
* Heinz Baked Beans (John Entwistle)
* Mary Anne with the Shaky Hand (Pete Townshend)
* Odorono (Pete Townshend)
* Tattoo (Pete Townshend)
* Our Love Was (Pete Townshend)
* I Can See for Miles (Pete Townshend)
* I Can’t Reach You (Pete Townshend)
* Medac (John Entwistle)
* Relax (Pete Townshend)
* Silas Stingy (John Entwistle)
* Sunrise (Pete Townshend)

  • Rael (1 and 2) (Pete Townshend)

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