Paul McCartney

Out There Tour no Uruguai

TUDO METICULOSAMENTE IGUAL

Na entrada do estádio barracas oferecendo produtos oficiais: camisetas, Programa, pôster, chaveiros e outros itens. Às 20h15 o DJ saiu de cena e começou a longa exposição de fotografias de todas as eras dos Beatles descendo pelas telas de LED gigantes nas laterais do palco. O show começou às 20h45 com “Eight Days A Week”. E Paul McCartney estava lá, no centro das atenções, esbanjando carisma como de praxe, vestindo preto e empunhando o baixo Hofner. “Boa noite Montevidéu”, disse em espanhol saudando os uruguaios. E emendou: “Eu estou muito contente de vê-los novamente”, antes de tocar “All My Loving”.

Com o público devidamente dominado, disse em bom castelhano: “vou tentar falar um pouco de espanhol, mas vou falar mais em Inglês”, brincou. Na medida em que o concerto foi avançando Paul continuou a falar em espanhol as frases escritas em pedaços de papel colados ao chão do palco. “Eu vou ter um momento só para vê-los”, acrescentou depois de mudar para a guitarra elétrica Gibson Les Paul e tocar “Let Me Roll It”. Em “Paperback Writer” usou aquela mesma guitarra Epiphone vintage da gravação original. Cada frase, gesto, movimento, gracinhas que Sir Paul McCartney faz são as mesmas. Só muda o idioma do país onde ele se apresenta. Mesmo assim, apesar de conhecer as regras do

espetáculo e o profissionalismo do protagonista, o público sempre vai ao delírio.

A interação de Paul com a plateia foi generosa e durou quase o tempo todo do show.

Em dado momento ele pediu que os uruguaios presentes levantassem as mãos. E os

que tinham vindo do exterior também. Na reta final duas meninas aparentemente

escolhidas a esmo sobem ao palco em clima de deslumbre e comoção e recebem

autógrafo no próprio corpo. Tudo meticulosamente igual, rigorosamente repetido e

exaustivamente ensaiado para parecer espontâneo. E é o que parece, sempre. Paul

McCartney não é só profissional, é um talento na área do marketing. Disciplinado,

repete a fórmula onde quer que passe sem possibilidade de errar. O encantamento

o mantém aos olhos do público como o superstar mais simpático e gente boa que

conhecem, noves fora a competência para compor, cantar e tocar. Não importa se a

espontaneidade é calculada. Funciona porque é parte de uma engrenagem muito bem

azeitada que pode ser resumida como “a aura de Paul”.

O show oferece ao expectador um dos catálogos mais preciosos da música popular

em todos os tempos. Canções que atravessaram sua carreira solo e gemas dos Wings

estão no setlist como coadjuvantes da cereja do bolo os clássicos dos Beatles, onde o

espetáculo se apoia. Títulos mais recentes também são incluídos de forma estratégica.

My Valentine foi cantada ao piano e dedicada a Nancy Shevell. “Essa eu escrevi para

minha linda esposa”, disse Paul. E enquanto ele interpretava, os telões exibiam o clipe

oficial da canção estrelado por Johnny Depp e Natalie Portman. Na introdução para

Another Day, McCartney falou em espanhol que a próxima música se chamava, “Viver

Mais um Dia”. E os castelhanos particularmente adoraram a execução de Lovely Rita,

jamais tocada pelos Beatles no palco.

No momento acústico o estádio Centenário ficou praticamente às escuras enquanto

Blackbird era apresentada do alto daquela plataforma que vimos na estreia da

“Out There Tour” no ano passado. Paul foi elevado vários metros palco acima. E

continuou lá para, Here Today, que ele revelou aos uruguaios tratar-se de um tributo

a John Lennon, como se o público não estivesse careca de saber. Logo depois foi

a vez de homenagear George Harrison com a introdução de Something ao ukelele.

Tudo meticulosamente igual. Quem viu Paul McCartney nos palcos ao longo destes

últimos cinco ou dez anos encontrou o mesmo show que já viu antes. Os acréscimos

ou supressões ao setlist não modificam em essência o desenho de um evento que

é praticamente a mesma coisa desde 1989. A justificativa para não mudar nada

tem sentido se for levado em conta que o público vai para ver Paul McCartney e se

emocionar diante dele, não importando se na realidade o espetáculo se repete. O

que é levado em conta é o prazer de ver o ídolo novamente. E as turnês incessantes

de Paul McCartney nos últimos 25 anos são um sucesso de público e crítica onde quer

que vá. Para ele conta também o prazer de tocar ao vivo ao redor do mundo, tanto

que não há continente por onde ele não tenha passado. Não é de se duvidar que Paul

tenha perdido a conta do número de cidades por onde andou.

O momento diferente da noite no Uruguai

One After 909 saiu do repertório dos Beatles e foi tocada pela primeira vez numa

turnê de Paul McCartney. Atendeu ao pedido de um dos espectadores. “Você está

feliz agora” questionou Paul ao fã que dançou com empolgação durante todo o

número tocado em ritmo de soundcheck. Essa talvez passe a ser a nova bossa desse

espetáculo. O setlist também reservou lugar para quatro números de seu disco mais

recente, NEW, e assim o público uruguaio pode ouvir Queenie Eye; Everybody Out

There e Save Us, além da faixa título, mas o que realmente segurou o show foi o

repertório de clássicos dos Beatles: And I Love Her; Lady Madonna; Eleanor Rigby;

ObLaDi ObLaDa; Let It Be; Being For the Benefit of Mr Kite e muitas outras. Da

carreira solo, Live and Let Die é presença obrigatória. Na hora do bis: Day Tripper;

Yesterday; Get Back; Abbey Road Medley…

Uma fórmula infalível

McCartney visitou Montevidéu pela segunda vez. A primeira, em 2012, teve um

cenário mais simples. Dessa vez o palco media 70 metros de largura por 22 de altura

equipado com 650 telas de LED. A montagem exigiu o esforço de 500 trabalhadores.

A plataforma que eleva o artista sobre o público e um novo laser iluminado também

foram novidades. Pirotecnia e efeitos especiais completaram a fórmula de sucesso

de um dos maiores nomes da história da música em atividade. Paul também fez as

concessões de praxe: aparições no hotel; acenos para os fãs durante os deslocamentos

de carro e a distribuição de brevíssimos apertos de mão aos mais sortudos. Esse Paul

que sabe esgrimir a fama como ninguém, não demonstra qualquer intenção de se

aposentar. Pelo contrário. O que se viu na noite de sábado (19/04) em Montevidéu

foi o beatle exercendo o direito de ganhar dinheiro e se divertir oferecendo em troca

a certeza da satisfação garantida. Sua voz permanece muito boa e os antecedentes

históricos por trás dele são tão grandes e imponentes quanto sua determinação de

não parar. Outro fator que impulsiona Paul McCartney é a presença de jovens em seus

concertos. A maioria por certo não era nascida quando os Beatles se separaram, já que

se o fossem não seriam jovens, mas quarentões bem próximos da meia idade. A nova

geração que se esgoela pelo setentão McCartney nos estádios faz desse espetáculo ao

vivo o show de rock and roll que você jamais pode perder.

Cidadão do mundo in concert

Estima-se que 50.000 pessoas lotaram o velho Centenário. Foi a segunda vez na

história do estádio que foi atingida a capacidade total de público. Mas a plateia

não era formada somente de uruguaios. Do Brasil cerca de 4.000 pessoas vieram.

Da Argentina, 7.000 fãs esgotaram com antecedência a capacidade hoteleira de

Montevidéu. E veio gente de muito mais longe. Ingressos foram obtidos por fãs

europeus que viajaram da Espanha, Itália, e Reino Unido. E também tinha gente dos

Estados Unidos, Peru, Chile e África do Sul. Ciente disso, e como um legítimo cidadão

do mundo, Paul McCartney desafiou o público no começo do concerto para que

informassem de onde vinham. O homem sabe que arrasta multidões…

Cláudio Teran

[email protected]

Com informações adicionais de Alejandra Volpi (El País)

“EU SINTO FALTA DO MEU AMIGO JOHN”

Por Alejandra Volpi

Tradução: Cláudio Teran

Paul McCartney falou com exclusividade ao El País de Montevidéu por telefone

enquanto ainda estava numa locação secreta em Los Angeles (EUA) ensaiando para

a retomada da “Out There Tour”. Afável ele saudou os uruguaios com entusiasmo.

 ”Eu quero estar aí em breve”. A produção de Paul estipulou tempo de 15 minutos

para as perguntas e ele falou sem muito protocolo. Após a segunda questão a linha

ficou muda e Macca se desculpou: “é que estou no carro, seguindo para os ensaios,

mas vamos continuar”. Como é comum nessas ocasiões não faltou bairrismo na hora

das indagações. A repórter quis saber o que Paul achava do fato de a primeira banda

de rock do Uruguai, a obscura The Shakers, surgir inspirada nos Beatles. “Ah é bom

saber”, disse ele. O El País publicou a entrevista no dia 13 de Abril, uma semana antes

da retomada da turnê iniciada em solo brasileiro em 2.013.

Qual é o segredo para ficar em forma e com tanta força e inspiração para continuar a

fazer música?

Eu amo música, amo tocar ao vivo e fazer shows. Quando eu toco em um lugar

como o Uruguai a coisa mais surpreendente para mim é o público os fãs. Eu vejo

que as pessoas na América Latina têm uma ligação muito forte com a música e isso é

muito emocionante. Tocar ao vivo é sempre uma festa, é a garantia de ter um bom

momento. Muitas vezes as pessoas me perguntam você não se cansa de fazer shows?

E a resposta é não porque me dá muita energia. É uma grande coisa, é algo que eu

sempre fiz e é o que eu amo. O público é muito energizante.

Você está preocupado com a passagem do tempo?

Não porque na realidade não há nada que eu possa fazer contra a passagem dos anos.

Você tem planos de escrever sua autobiografia?

Não. Já existem muitos livros sobre a minha pessoa e eu não quero adicionar outro a

pilha. Biografia requer um monte de trabalho, você precisa ter tempo para sentar e

escrever e estou sempre ocupado. Por outro lado há muitas publicações que falam de

mim e dos Beatles, mas nem todas são confiáveis ??ou corretas.

O que significa NEW em sua carreira? Como foi o processo de produção?

Acho muito importante ter novas músicas para tocar em concertos. E este álbum

cumpre essa função. Se você também tem sucesso como por sorte NEW tem tido, as

pessoas conhecem as músicas novas e querem que a gente toque combinando com as

antigas. O novo material é divertido de tocar e foi bem recebido pelo público.

O que você pensa quando vê os Rolling Stones ainda juntos e na ativa? Se John e

George estivessem vivos os Beatles poderiam ter voltado?

Bem, talvez, mas como eles não estão mais vivos é impossível. Se eles estivessem

aqui poderíamos ter trabalhado juntos novamente, mas dizer isso agora é ficar nas

hipóteses: sim, não, não sei, é, não é, quem sabe… Não, eu não gosto desse jogo. É

como perguntar o que aconteceria se eu deixar cair uma TV em sua cabeça. Você sabe

o que quero dizer. As pessoas me perguntam isso muitas vezes e no final só se pode

falar em suposições, fantasias. É como se eu perguntar: o que teria acontecido se o seu

avô tivesse sido uma estrela de um programa de televisão? Estrela, oh não! Foi? Não

foi? Não adianta ficar falando em suposições.

Alguém que é considerado um mito, uma lenda, como não surtar e manter os pés no

chão?

Eu me apego à minha família. Tenho uma família maravilhosa, eu tenho sorte. Uma

esposa maravilhosa, filhos lindos e netos e muitos deles estão comigo agora. Três dos

meus filhos estão comigo e vão com a gente na nova turnê, além de quatro dos meus

netos, minha esposa e um filho dela. Isto é extremamente importante. Minha família

me dá equilíbrio, é real, é normal. E também é divertido fazer um show de rock and

roll gigante porque é como magia, um mundo grande e especial. E quando terminar

eu tenho a mão as pessoas que eu mais amo no mundo, as pessoas comuns que estão

esperando por mim em casa. Elas mantêm meus pés no chão. Eu sempre tive uma

família fantástica desde criança em Liverpool. E aprendi que você não pode ficar louco

ou soberbo por ser famoso. O equilíbrio que eu tenho desde novo em Liverpool é o

mesmo que mantenho entre aqueles que estão em torno de mim hoje.

O que você mais sente falta de Lennon? Alguma coisa ficou pendente entre vocês?

Uma palavra não dita, uma canção sem gravar?

Acho que não ficou nada sem dizer, sem conversar. Dissemos muitas coisas um

ao outro. Éramos amigos íntimos e acontece o mesmo com George. Eu sinto falta

de John, é claro, porque éramos muito próximos. Ele era engraçado, inteligente,

bom compositor, era como um irmão. E no tempo em que trabalhamos juntos o

resultado sempre foi muito bom. Sinto falta dessa companhia e das experiências que

compartilhamos, mas da mesma forma que um pai ou irmão morre ou quando você

perde alguém da família, eu sinto a mesma falta de John. Acho que dissemos tudo o

que queríamos um ao outro e não me arrependo de nada. No final nós dois sabíamos

que queríamos muito bem um ao outro.

Como foi trabalhar com ele e como vocês se completavam?

Quando começamos éramos dois jovens que queriam aprender a tocar e escrever

músicas. Foi um tempo maravilhoso em nossas vidas. Aprendemos e melhoramos

nosso ofício e nos tornamos bons compositores. Se John precisava de ajuda com algo

que estava compondo muitas vezes eu poderia dar-lhe uma resposta, e o contrário

também acontecia. Foi uma parceria perfeita, porque nós crescemos juntos. Muitas

das nossas canções fizemos rapidamente, porque já tínhamos chegado a um bom

nível. Sozinho John era um grande cantor e compositor e também tenho facilidade

para cantar e compor, mas quando trabalhamos juntos foi especial.

O que você mais gosta em ser um Beatle? Você se arrepende de alguma coisa?

Eu não me arrependo de nada. Tenho tantas lembranças bonitas. Talvez você dissesse

que eu não gostava quando estávamos discutindo, mas isso acontece em qualquer

família. As pessoas discutem e, por vezes, não se pode enlouquecer e se arrepender

dessas coisas, você tem que entender que a vida é assim que por vezes discutimos

com nossos irmãos, mas continuamos nos querendo muito. Tivemos um ótimo tempo

juntos e sou muito orgulhoso do que criamos. E por outro lado tudo se interliga.

Enquanto me preparo para ir ao Uruguai sei que vou tocar muitas das canções dos

Beatles e coisas dos Wings. Eu gosto de escolher músicas de diferentes épocas e toca-
las em um concerto, e o incrível disso tudo é que todas têm consistência e fazem

sentido juntas. As pessoas sempre dizem que é ótimo ouvir músicas de diferentes fases

da minha carreira e perceber que elas estão todas relacionadas. O que me excita é

isso, o show que vou fazer agora no Uruguai.

Depois de incursionar pelo jazz com Kisses on the Bottom, e de um álbum como

NEW, O que vem a seguir? O que pretende experimentar?

Eu estou sempre trabalhando em coisas novas e escrevendo. Agora comecei um filme

de animação para crianças baseado num livro infantil que escrevi há alguns anos. E a

música personalizada para a trilha sonora deste filme eu também estou produzindo.

Quando sai? Ainda vai levar um par de anos.

Yoko Ono disse que não causou a separação dos Beatles. Como é a sua relação com

ela hoje?

É um bom relacionamento. Vemo-nos muitas vezes em eventos. Recentemente

estivemos juntos em uma homenagem ao cinquentenário dos Beatles, uma noite antes

do Grammy Awards. Estamos convivendo bem, ela e eu somos amigos.

Qual é o seu álbum favorito dos Beatles e por quê?

Esta pergunta é muito difícil para mim, porque os discos são como seus filhos: você

não quer ter um único favorito. Eu não poderia dizer nem qual é a minha música

favorita porque eu teria que listar.

É verdade que você vai a concertos de estrelas jovens para se manter atualizado?

Sim, é verdade. Eu vou a muitos concertos porque eu realmente gosto das

performances ao vivo. Minha esposa Nancy também aprecia ir e acaba sendo um bom

programa noturno. Vemos muitos artistas. Recentemente assistimos aos shows do Jay

–Z, Kanye West, Justin Timberlake e alguns artistas de hip hop. É quase tão divertido

quanto ir ver um concerto de Paul McCartney! (risos).

Você é um fã de Luís Suarez? Lembra que mencionou o nome dele em sua

apresentação no Estádio Centenário, em 2012?

Sim, ele é maravilhoso! Tem sido ótimo para o Liverpool, é um grande jogador e é uma

pessoa muito querida na minha cidade natal.

Pergunta do fã

O El País também selecionou uma pergunta do público através de chamada nas

redes sociais Facebook e Twitter que provocava: se pudesse perguntar algo a Paul

McCartney, o que diria? A indagação escolhida entre milhares de postagens pela

jornalista Alejandra Volpi partiu do usuário do Twitter @ MattAlmendras.

Como você mudou sua maneira de compor ao longo dos anos?

Meu processo continua o mesmo de quando eu comecei a compor. Sento-me com um

violão ou piano e apenas eu. Mas é interessante ver como a evolução da composição

gera mudanças. Por exemplo, se eu estou trabalhando com um novo produtor, talvez

ele me peça para criar alguma coisa no estúdio, um ritmo, tipo experimente isso ou

aquilo. Em NEW algumas músicas surgiram dessa forma, independente dos produtores

porque eles estão acostumados a criar dessa maneira e então às vezes eu me adapto a

esse estilo e vamos mudando as músicas. Eu faço isso porque é excitante experimentar

coisas novas o que acrescenta frescor ao resultado final…

Cláudio Teran

[email protected]

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