Paul McCartney comemora a trajetória de sua vida após os Beatles com uma série de lançamentos dedicados ao Wings, banda que comandou entre 1971 e 1981. Quase 45 anos após a morte de John Lennon, McCartney lança um pacote de produtos que inclui livro autobiográfico, discos e documentário, voltados a recontar e celebrar a história do grupo que marcou sua década de 1970 ao lado de Linda McCartney e Denny Laine.
O Wings surgiu na fazenda escocesa dos McCartney em 1971, quando Paul buscava superar a depressão causada pelo fim dos Beatles e pelas disputas judiciais que se seguiram. Com o baterista americano Denny Seiwell e o guitarrista e tecladista inglês Denny Laine — ex-Moody Blues —, McCartney formou a nova banda, batizada a partir de um sonho de Linda com anjos de asas. O primeiro álbum, Wild Life, saiu ainda naquele ano, inaugurando uma fase de experimentações, turnês universitárias e ascensão de público.
Os anos iniciais foram marcados por turbulências, incluindo prisões por porte de maconha e impasses com a EMI, que interferia em decisões artísticas. Mesmo assim, Paul encontrou estabilidade criativa em Band on the Run (1973), gravado na Nigéria após a saída de dois integrantes na véspera da viagem. O disco, feito apenas por Paul, Linda e Laine, tornou-se um clássico do rock dos anos 70 e consolidou o Wings como projeto vitorioso.
A banda, porém, continuou em constante mutação. Músicos como Jimmy McCulloch, Joe English, Geoff Britton, Steve Holly e Laurence Juber passaram por suas fileiras, deixando marcas em álbuns como Venus and Mars (1975), Wings at the Speed of Sound (1976), Wings Over America (1976) e London Town (1978). Nesse período, McCartney alternava grandes turnês e gravações com projetos paralelos, como o tributo Holly Days, feito com Denny Laine e agora relançado pela MPL a pedido da viúva do guitarrista, Elizabeth Hines.
O último disco da banda, Back to the Egg (1979), foi gravado em um castelo inglês e contou com participações de peso, entre elas Pete Townshend, John Bonham e David Gilmour, no projeto Rockestra. Embora não tenha alcançado o sucesso comercial esperado, o álbum tornou-se peça cult do catálogo de McCartney.
Em 1980, quando o Wings se preparava para uma turnê no Japão, McCartney foi detido no aeroporto de Tóquio por portar maconha. A prisão frustrou a excursão e precipitou o fim do grupo. Pouco depois, a morte de John Lennon levou Paul a se recolher por um período, encerrando de vez a história do Wings.
Na década seguinte, McCartney retomou gradualmente os palcos, reconstruindo sua carreira solo e consolidando seu repertório ao vivo com faixas do Wings que, aos poucos, ganharam o reconhecimento que mereciam. O pesquisador Luca Perasi, autor da série Music is Ideas, observa que hoje há um interesse renovado por essa fase, especialmente entre gerações mais jovens que passaram a ver McCartney como um artista intergeracional.
O fim de 2025 traz o ponto culminante dessa redescoberta: o lançamento do livro Wings – The Story of a Band on the Run (576 páginas), acompanhado por vinil triplo, CD duplo e um Blu-ray com clipes e registros raros. Em fevereiro de 2026, estreia no Prime Video o documentário Man on the Road, que encerra a celebração com material inédito e entrevistas.
Mais do que revisitar o passado, McCartney reafirma a relevância artística e afetiva do Wings — uma banda nascida do luto e da reinvenção, que se tornou símbolo de superação e criatividade em um dos períodos mais férteis de sua vida.
Por Marcelo Fróes – Publicado originalmente no Estadão (29/10/25)












José Carlos Almeida
Fernando França