
Como a obra-prima de uma banda que já não existia se tornou o álbum perfeito de pop psicodélico?
Imagine a cena: Londres, 1967, o Verão do Amor está a todo vapor. Enquanto o mundo ouvia “Sgt. Pepper’s”, uma banda britânica brilhante, The Zombies, estava na miséria, sem gravadora e prestes a se separar. Eles decidiram queimar seus últimos cartuchos (e dinheiro) para gravar um álbum final, quase um testamento, no lendário estúdio de Abbey Road. O resultado foi “Odessey and Oracle”, um disco que nasceu como um fantasma: a banda se dissolveu antes mesmo de ele chegar às lojas.
Os autores desse milagre melancólico são, claro, The Zombies, um grupo liderado pelos talentos complementares de Rod Argent (tecladista e gênio melódico) e Chris White (baixista e contador de histórias). Eles eram mestres em criar canções que soavam como vitrais: complexas, coloridas e um pouco sagradas. O vocalista Colin Blunstone, com sua voz quase etérea, era o veículo perfeito para as ambições da banda, que misturava rock com toques de jazz e música clássica.
A banda teve que se virar com um orçamento minúsculo, o que os forçou a serem incrivelmente criativos. O som suntuoso de orquestra que você ouve? Na maioria das vezes, é apenas Rod Argent tocando um Mellotron (um teclado que reproduzia fitas de instrumentos reais), que por acaso foi deixado no estúdio por ninguém menos que John Lennon. Eles trabalharam rápido, gravaram tudo e, quando a CBS pediu uma mixagem estéreo (que era novidade), Argent e White tiveram que pagar do próprio bolso.
O tema central do álbum é uma espécie de melancolia ensolarada. É um disco outonal, cheio de nostalgia por coisas que talvez nem tenham acontecido, mas também com lampejos de otimismo. É o som do pop barroco levado à perfeição: harmonias vocais que parecem um coral de anjos, pianos elétricos, cravos e linhas de baixo que andam sozinhas. É um álbum que soa ao mesmo tempo antigo e atemporal, uma cápsula do tempo da psicodelia mais sofisticada e menos chapada.
Analisando as faixas, é difícil saber por onde começar. “Care of Cell 44” abre o disco com uma melodia saltitante e alegre, mas a letra é uma carta para alguém… na prisão. Essa dualidade define o álbum. “This Will Be Our Year” é, talvez, a mais pura canção de otimismo já escrita, um hino de esperança de dois minutos que se tornou um favorito cult. E “A Rose for Emily” é uma balada de piano de partir o coração, inspirada em William Faulkner, sobre a solidão.
Claro, a faixa que o mundo conhece é “Time of the Season”. Curiosamente, foi uma das últimas a serem gravadas e a que mais deu briga. Rod Argent teve que insistir muito para que Colin Blunstone cantasse daquele jeito icônico, quase sussurrado. O riff de baixo, o órgão e o estalar de dedos criaram um clássico imortal, mas que demoraria a acontecer.
O disco foi lançado em abril de 1968 e… foi um fracasso retumbante. Ninguém comprou, a crítica não deu bola e a CBS não sabia o que fazer com ele. A banda, já separada, seguiu em frente. Foi só mais de um ano depois, nos Estados Unidos, que o produtor Al Kooper (da Blood, Sweat & Tears) ouviu o disco, ficou alucinado e convenceu a gravadora Date, um braço da CBS, a lançar “Time of the Season” como single. A música explodiu, chegou ao top 3 da Billboard e, de repente, todo mundo queria saber quem eram The Zombies, mas eles já não existiam mais.
A maior curiosidade, além do fato de ter sido um sucesso póstumo, está na capa: o título está escrito errado. O artista da capa, Terry Quirk, escreveu “Odessey” em vez de “Odyssey”. Quando a banda percebeu o erro de ortografia, já era tarde demais para mudar e o orçamento era zero. O nome ficou, tornando a “odisseia” do álbum ainda mais única. Hoje, o disco é uma unanimidade, citado por artistas como Paul Weller e Dave Grohl como uma influência fundamental e presença constante em listas de melhores de todos os tempos.
Ficha Técnica
Autor/banda: The Zombies
Ano de lançamento: 1968
Produtor: The Zombies
Gravadora/Editora: CBS (Reino Unido) / Date Records (EUA)
Tracklist
- Care of Cell 44 (Rod Argent)
- A Rose for Emily (Rod Argent)
- Maybe After He’s Gone (Chris White)
- Beechwood Park (Chris White)
- Brief Candles (Chris White)
- Hung Up on a Dream (Rod Argent)
- Changes (Chris White)
- I Want Her, She Wants Me (Rod Argent)
- This Will Be Our Year (Chris White)
- Butcher’s Tale (Western Front 1914) (Chris White)
- Friends of Mine (Chris White)
- Time of the Season (Rod Argent)












José Carlos Almeida
Fernando França