A Beatlemania sempre rendeu lindas histórias, tanto envolvendo eles, quanto os seus fãs. E com as constantes vindas de Paul McCartney (e Ringo Starr) ao Brasil, essas histórias se multiplicaram. Uma das mais bacanas é a do “Dad and Son” (Pai e Filho), ou seja, Hermilio e Rafa Borba. Hermilo contou com suas próprias palavras para o Portal Beatles Brasil.

Os Beatles entraram em minha vida em 1977, quando eu tinha 10 anos. O irmão mais velho de um vizinho amigo meu trouxe o HELP! (edição brasileira) e quando aquele som saiu, eu me apaixonei de imediato, especialmente pela música “The night before”. Perguntei ao irmão desse amigo quem cantava e ele respondeu que era o Paul McCartney, pois na época não conhecia as vozes para identificar o beatle que cantava. Desde dessa época, mostrei mais interesse pelo Paul, não desmerecendo os outros, mas as músicas cantadas por ele chamavam mais a minha atenção. Meu amigo também gostou muito da banda, começou a comprar os discos e sempre me chamava para ouvir. Era sempre muito excitante abrir, colocar na radiola e esperar sair o que ia tocar. Eram momentos mágicos. Depois escolher qual a melhor música de cada álbum e identificar quem cantava.

Lembro que ainda em 77, foi lançada uma revista de música só com os Beatles, contando a história, centenas de fotos e, pela primeira vez, algumas letras das músicas. Esse foi o meu primeiro material, a seguir dos discos. Às vezes passava algum programa na TV e mostrava os caras, aí era uma alegria só, vê-los atuando. Mas isso era raridade naquela época.

Com a morte de Lennon em 1980, muita coisa surgiu na imprensa e imagens “inéditas” apareceram e nesse período passou na Bandeirantes um especial de fim de ano com trechos de shows ao vivo (Ed Sullivan, Washington e Budokan). Pense num sofrimento, ver aquilo e não poder gravar! Não havia vídeocassete. Depois, ainda década de 80 (1982 ou 1983), um outro especial no canal 11, Som Pop, também mostrou trechos de shows, só que dessa vez com 3 músicas do Shea Stadium, aí piramos. Um amigo da escola tinha vídeocassete, gravou e quase todo dia ia na casa dele ver o programa. Ele gravou uma fita K7 para que eu pudesse ouvir no gravador (no carro, em casa etc). Gastei a fita de tanto ouvir.

Era uma época sem internet, CD ou DVD. Quando alguém conseguia algum material diferente, imediatamente nos juntávamos para ouvir e gravar em fita K7. Lembro de uma revista de Marco Antônio Mallagoli que tinha uma seção especial sobre os bootlegs. Lia e ficava imaginando sobre aquelas músicas que não foram gravadas oficialmente, versões diferentes, ensaios, ao vivo etc. Consegui comprar meu primeiro bootleg (Shout) na loja Revolution, em SP. Quando cheguei em Recife e contei pros amigos, parecia um rei: todos faziam uma romaria para ver, pegar e gravar o disco. Fiz uma coleção muito boa de bootlegs, inclusive com o que era considerado o santo graal da época, o famoso Black Album, triplo, com músicas do período do Let it Be.

Em 1990  veio a notícia que o Paul viria ao Brasil para dois shows. Meu Deus, todo mundo ficou maluco. Nessa mesma época conheci aquela que, para mim, é a maior beatlemaníaca que conheço, minha amiga Cláudia Tapety. Essa acorda, dorme, come, respira Beatles 24 horas por dia. Fomos para o show, porém nos desencontramos. Foi umas das maiores emoções da minha vida, quando o Paul entrou no palco, ver um beatle ao vivo. Ninguém se segurou e foi aquela choradeira. Aliás, choro até hoje. No segundo show, o coro de 184.000 pessoas cantado “Hey Jude” foi surreal. Ver e ouvir um ícone e suas músicas que marcaram uma época, que mudou gerações, não tem palavras que exprimam a emoção.

Em 93 estávamos lá de novo, desta vez São Paulo e Curitiba. No show de Curitiba, outra emoção: o concerto foi exatamente no dia da comemoração do primeiro aniversário do meu casamento e nessa época o Paul cantava “Here, there and everywhere”, a música que escolhi para ser tocada quando entrei na igreja. O engraçado foi que depois do show, voltamos para o hotel, para trocar de roupa e sair para o jantar de comemoração. Devido ao adiantar da hora, praticamente já era madrugada, com tudo fechado e acabamos comendo cachorro-quente em um carrinho próximo ao hotel. Esse jantar ficou marcado.

Após um jejum de 17 anos, antes do retorno dele ao Brasil, fui com a Cláudia Tapety ao show de Miami. E isso é para outra história.

Uma data histórica para mim: 07/11/2010, o dia que realizei um sonho em dobro. Sim, neste dia assisti ao show de Paul McCartney em Porto Alegre ao lado do meu filhote Rafael. Desde então, não paramos mais de ir juntos aos shows, inclusive fora Brasil (Lima e Buenos Aires).

O show mais importante

Um fato importante de turnê On the Run, em 2012, foi o acréscimo no setlist de “The Night Before” e “Maybe I’m Amazed”, que são as 2 músicas que sempre quis ver ao vivo. A primeira, como já comentei anteriormente, foi a primeira dos Beatles que me conquistou e a segunda por motivo histórico, e por ser uma das mais belas e emocionantes músicas de Paul (me acabei de chorar nas duas).

No segundo dia parece que tudo conspirou para dar certo. Deixei Rafa dormindo e fui para a fila por volta das 10h. No caminho, disse a minha esposa que lavasse a roupa de Sgt. Pepper, pois Rafa não queria ir no segundo show com ela, porque era muito quente. Mas eu disse que lá ele trocava. Por volta das 13h, Brian (segurança do Paul) passou pela fila fazendo uma contagem. Em relação ao dia anterior tinha bem menos gente e nos convidou para o soundcheck. Nesse momento bateu meu desespero, pois Rafa não tinha chegado. Brian disse: “follow me” e eu fiquei parado, chorando. Quando o grupo estava a cerca de 100 metros, indo em direção ao outro portão, eu corri para alcançá-los, ao mesmo tempo que ligava para minha esposa para trazer Rafa o mais rápido possível.

No portão, Brian fez outra contagem e disse ao outro segurança do Paul (um careca alto), que a partir dali, do último da fila, não entraria mais ninguém e apontou pra mim e disse: “só o filho dele”. Só faltei beijar os pés dele por isso. Em 5 minutos Rafa chegou e conseguimos entrar. Horas depois, fomos levado para um local dentro do estádio. Brian pediu para todos sentarem e disse que infelizmente não poderíamos assistir a passagem do som, pois alguém do pacote Hot Sound descobriu e ameaçou processar a produção, pois eles tinham pago e nós não. Mas ele nos deixou dentro e conseguimos ouvir toda a passagem do som, inclusive pelo telão.

Rafa já estava vestido de Sgt. Pepper e eu comprei um programa para caso subíssemos no palco (durante o soundcheck), pois o vinil eu deixei na rua com a correria. Quando fomos liberados, Rafa correu e pegou a grade à esquerda do Paul e ele sempre se vira mais para a esquerda. Ficamos mostrando o banner que estava escrito: “Paul você só chama as meninas ao palco, por favor nos chame. pai e filho”. Eu e Rafa cantamos várias músicas abraçados e de mão dadas. Isso também ajudou, pois Paul é muito família. Perto do fim do show eu juntava as mãos e dizia: “please”. Durante “Yesterday” vi que o Brian chamou uma garota lá na lateral esquerda. Pensei comigo: “pronto, vai chamar menina de novo”, pois a distância era grande. Fiquei olhando se outra menina seria escolhida, quando percebi que os 2 seguranças vinham com uma lanterna lendo os cartazes e se aproximando, aproximando, o nervosismo aumentado. E quando chegaram a nossa frente, leram o banner e disseram: “Dad and son, come on”. Não acreditei! Rafa pulou rapidamente a grade e eu tendo dificuldade, pois uma menina queria a todo custo ir. Dei-lhe um empurrão e pulei a grade. Na subida ao palco vi que tinham 2 meninas que não foram escolhidas e o Brian parou, dizendo que nós três tínhamos sido a escolha do Paul. Elas imploraram, mas outro segurança as tirou.

Visivelmente eu estava tão nervoso que um dos seguranças perguntou se eu não ia desmaiar e eu respodi: “I’m fine, I’m OK”. Primeiro entrou Cecília, de Brasília, depois eu e Rafa. Ele nos recebeu super bem, perguntando nome e de onde éramos. Olhou para o público e disse: “esses são pai e filho”, apontou para Rafa e disse – “esse é o pai”, tocou no meu nariz e disse “esse é o filho”. Todo mundo riu. Em seguida, autografou o programa da turnê de Rafa e uma foto que eu tirei do programa antes de subir. Após o abraço, não sei como tive forças para dizer algo e saiu: “Paul, obrigado por fazer o mundo melhor com suas músicas”. Nessa hora ele disse: “Oohhh, thank you!” e passou a mão em meu rosto, como sinal de agradecimento. Sem dúvida, um dos melhores momentos da minha vida. Nunca pude imaginar que seria dessa forma: em minha cidade, conseguir falar com Paul, ter autógrafo e um abraço. Quando descemos, liguei imediatamente para minha Fátima, chorando como uma criança. Logo, várias pessoas vieram para tirar fotos, bem como pessoal da imprensa local, mas a pessoa que eu mais queria ver naquela multidão era Cláudia Tapety, pois ela sabia o quanto eu desejava aquele momento. Foi muita emoção.

Todos os shows do Paul são inesquecíveis. Terminado o show sempre vejo muita gente abraçada e chorando e fico pensando como um cara desse pode causar tanta emoção, ser tão querido. Realmente, sua música nos toca bem lá no fundo. Na alma!

Quero agradecer a Deus por essa dádiva, a minha esposa Fátima por entender essa loucura, meu filhote Rafael, Cláudia Tapety que sempre acreditou nesse dia, Ana, Gustavo Montenegro, Jr, Lenira, Luciana, Heloísa, Bruno (que fez a filmagem e postou no youtube), grande Ricardo Martinelli (que fez fotos maravilhosas), JC (Portal Beatles Brasil), a todos que conheci na fila para os shows em POA, SP, RJ (Fernando, Júlia e Lívia, que conheci na fila e fizemos uma ótima amizade, ficando em minha casa aqui em Recife), BH, Floripa, Brasília, Goiana e Recife, pelas palavras de carinho que recebi.